
Uma intervenção no litoral catarinense reuniu dragagem, engenharia costeira e recuperação de praia em uma mesma operação, transformando a dinâmica da orla e do canal portuário em um caso de interesse para infraestrutura, meio ambiente e navegação.
Uma obra em Itapoá, no litoral norte de Santa Catarina, reúne duas frentes na mesma intervenção: o aprofundamento do canal de acesso à Baía da Babitonga e o reaproveitamento de parte da areia retirada do fundo para recompor a faixa de praia.
Segundo informações divulgadas por órgãos e empresas envolvidos no projeto, trata-se do maior alargamento de praia já executado no Brasil e da primeira iniciativa no país a destinar material de dragagem portuária para esse tipo de recuperação costeira.
A intervenção foi estruturada para ampliar as condições de navegação na região portuária e, ao mesmo tempo, reforçar um trecho do litoral sujeito à erosão.
O investimento mais recente divulgado oficialmente é de R$ 333 milhões, com conclusão geral prevista para o segundo semestre de 2026.

Dragagem na Baía da Babitonga e ampliação do canal
No canal externo da Babitonga, a obra prevê aprofundamento de 14 para 16 metros.
De acordo com o Porto de São Francisco do Sul, a mudança deve ampliar a janela operacional para entrada e saída de embarcações, com menor dependência das variações de maré e possibilidade de atendimento a navios de maior porte.
Segundo dados oficiais, a profundidade adicional permitirá a operação de embarcações de até 366 metros de comprimento, ante o limite anterior de 336 metros.
A projeção informada também indica aumento da capacidade de transporte, de 10 mil para 16 mil TEUs, medida usada no setor para contêineres.

Como a areia da dragagem é usada no alargamento da praia
Na prática, a dragagem retira sedimentos do canal para garantir mais profundidade e, em parte, redireciona essa areia para a orla de Itapoá.
O método é conhecido como alimentação artificial de praia, ou engordamento, e é adotado em áreas que enfrentam perda de faixa de areia por ação das ondas, das correntes e das ressacas.
Nota técnica do Tribunal de Contas de Santa Catarina descreve esse tipo de solução como a execução de aterros hidráulicos com sedimentos arenosos para mitigar erosão, recuperar áreas de lazer e proteger estruturas na zona costeira.
Em vez de tratar todo o material dragado como descarte, o projeto utiliza parte dele como insumo para a recomposição da praia.
As comunicações oficiais mais recentes do Porto de São Francisco do Sul apontam que a obra deve remover cerca de 12,5 milhões de metros cúbicos de areia do canal ao longo de toda a intervenção.
Desse total, a previsão mais atualizada é de que 5,8 milhões de metros cúbicos sejam destinados à praia, enquanto o restante seguirá para uma área oceânica licenciada pelo Ibama.
Em divulgações anteriores, no entanto, apareceram números diferentes para o volume total dragado e para a parcela destinada à orla.
Por isso, o dado foi tratado aqui com base nas informações oficiais mais recentes, sem unificar valores que ainda aparecem de forma distinta nas comunicações públicas do projeto.

O que mudou na faixa de areia de Itapoá
A recomposição da praia também mudou de escala ao longo das fases anunciadas.
Informações divulgadas no início da obra indicavam alargamento de 8 quilômetros de faixa costeira, com trechos que poderiam alcançar até 200 metros de largura.
Já a primeira etapa executada entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 foi apresentada pela empresa Jan De Nul como a entrega de uma base inicial ao longo de 8 quilômetros, com largura mínima de 40 metros.
Ainda segundo a empresa, cerca de 4 milhões de metros cúbicos de areia foram lançados na costa nessa primeira fase.
O trecho recebeu reforço ao longo da orla para formar uma faixa mais ampla de proteção natural diante da ação do mar.

Galileo Galilei e a operação de engenharia costeira
A operação foi realizada pela draga Galileo Galilei.
De acordo com o Porto de São Francisco do Sul, a embarcação tem 166 metros de comprimento e capacidade para transportar 18 mil metros cúbicos de material por viagem, volume comparado oficialmente a 1.800 caminhões trucados.

Esse tipo de embarcação aspira a areia do fundo marinho, transporta o sedimento e depois o bombeia até a praia, onde o material é espalhado com apoio de máquinas em terra.
A sequência exige coordenação entre operação marítima e trabalho em superfície para distribuir a areia conforme o perfil definido no projeto.
Restinga, dunas e monitoramento da erosão
Depois da chegada do sedimento, a estabilidade da nova faixa de areia depende de outras etapas.
Em 2026, o projeto entrou em fase de replantio de vegetação de restinga, medida apontada por técnicos e órgãos ambientais como importante para ajudar na fixação das dunas e reduzir a mobilidade da areia.
Segundo informações divulgadas pelo Porto de São Francisco do Sul e reproduzidas pela imprensa regional, o plano prevê o plantio de até 280 mil mudas de seis espécies nativas até o fim de 2026.
A recuperação vegetal integra a tentativa de dar maior permanência ao novo perfil da praia.
Além disso, Itapoá passou a usar monitoramento a laser para acompanhar o avanço do mar e a evolução da erosão em trechos da orla.
O uso dessa tecnologia permite medir variações do relevo com mais precisão e acompanhar a resposta da praia após a deposição do material dragado.
O acompanhamento é considerado relevante porque obras desse tipo não se encerram com o bombeamento da areia.
A evolução da linha de costa depende do comportamento das ondas, das correntes, das marés e da dinâmica sedimentar local, o que exige observação contínua para verificar a estabilidade do trecho recuperado.
Parceria entre porto público e terminal privado
A obra também chama atenção pelo formato institucional adotado.
A dragagem foi estruturada como uma parceria entre a autoridade portuária de São Francisco do Sul e o terminal privado de Itapoá, modelo apresentado oficialmente como inédito no país para esse tipo de intervenção.
Pelos números divulgados, R$ 33 milhões cabem ao porto público e R$ 300 milhões ao terminal privado.
A previsão oficial é de ressarcimento ao longo dos anos seguintes, com base no aumento de movimentação e nas receitas associadas à expansão da capacidade portuária.
No conjunto, a intervenção conecta temas que normalmente aparecem separados no debate público: logística portuária, erosão costeira, engenharia marítima e recuperação ambiental.
Em Itapoá, a areia retirada do canal para facilitar a navegação passou a ter uso também na recomposição da praia, dentro de um projeto que reúne infraestrutura e gestão costeira na mesma operação.
Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/brasil-remove-18-milhoes-de-toneladas-de-areia-do-fundo-do-mar-em-uma-megaoperacao-de-r-333-milhoes-que-abre-caminho-para-navios-maiores-e-transforma-a-propria-dragagem-em-reforco-cos-asaf04/





